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SP Escola de Teatro entrevista o artista sueco Per Hüttner

No final de fevereiro, a SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco recebeu a visita de dois artistas suecos incríveis: Per Hüttner e Carima Neusser.

A uma plateia lotada na Unidade Roosevelt, eles apresentaram duas performances distintas que fundiram teatro, performance, música, projeções, artes visuais e interações com o público: “Limites” e “Cocktail”.

Neusser apresentou “Cocktail”, onde preparou quatro tipos de bebidas para o público, sendo cada bebida está ligada a um período específico da história da dança (por exemplo, a corte de Luís XIV, o Butoh japonês, etc.). Enquanto servia cada bebida de forma coreográfica, ela falava de maneira pessoal sobre a era coreográfica e projetava imagens sedutoras que sublinham seu discurso.

Já Hüttner criou conexões entre texto, som e visual. Ele apresentou uma performance audiovisual, onde utilizou gráficos 3D hipnóticos em conjunto com sua música. Tudo se funde em um todo artístico onde som e imagem interagem perfeitamente. A música foi inspirada em três poemas curtos do escritor argentino Jorge Luis Borges.

A residência artística em São Paulo foi organizada pela área de relações internacionais e parcerias da SP Escola de Teatro. A residência e as performances no Brasil são produzidas pelo Vision Forum e a viagem ao Brasil é financiada pela Helge Ax:son Johnsons stiftelse e pela Kulturbryggan em Estocolmo.

Leia a entrevista completa com Per Hüttner:

Per Hüttner (www.perhuttner.com) é um artista visual e músico radicado em Paris. Ele possui quase 40 anos de experiência na criação de obras de arte interdisciplinares e já exibiu seu trabalho em galerias e museus em praticamente todo o mundo. Realizou sua primeira viagem ao Brasil em 2011, apaixonando-se pelo país e por seu povo. Desde então, apresentou exposições individuais, participou de mostras coletivas e realizou performances em um grande número de instituições em diversas cidades brasileiras.

Você costuma usar tecnologia, como o EEGsynth, para traduzir estados internos em som. Nesta obra apresentada na SP Escola de Teatro, como o som funciona como uma ferramenta para negociar a relação entre o real e as histórias que contamos a nós mesmos?

Uma das coisas que sempre me interessou ao criar minha música e imagens em movimento foi como os seres humanos podem entrar em estados hipnóticos. Como a música e as imagens podem ser uma forma de alterar os estados mentais das pessoas. Porque, se o estado mental de alguém muda, o mesmo acontece com a sua impressão do mundo ao redor. Não há, é claro, nada de novo nisso. Os seres humanos usam a música desde o início dos tempos para entrar em transe. Para entender como o transe, o hipnotismo e os diferentes estados cerebrais funcionam, trabalhei frequentemente com hipnotizadores. Por isso, fui hipnotizado tanto no palco quanto fora dele muitas vezes. Também organizei e participei de performances onde hipnotizadores colocavam a mim e ao público em estados leves de transe.

Para “Limites”, eu estava mais interessado em como músicas e imagens repetitivas e contínuas (estilo drone) podem colocar o público em estados de transe sem uma indução hipnótica. Os sons foram desenvolvidos com isso em mente e, portanto, a música se constrói lenta e ritmicamente. Também utilizo gravações que fiz com um xamã Sami com quem colaboro. O canto dele pode ser ouvido em todas as três composições que toco, e o som de seu tambor também é recorrente. As imagens que gero imitam o que se pode experienciar em estados psicodélicos ou sob a influência de drogas psicodélicas. As duas se desenvolvem em conjunto, de modo que a intensidade da música é acompanhada por um movimento acelerado nas imagens.

Mas, como você diz, a narrativa também entra em jogo. Por isso escolhi ler poemas de Jorge Luis Borges antes de cada uma das três partes da performance. Cada poema oferece imagens fortes e espero que, com a ajuda dessas imagens, cada membro da plateia possa se relacionar com seus próprios mundos, as questões e problemas com os quais lidam diariamente. O objetivo da performance, em certo sentido, é que a experiência de som e imagem possa provocar a vida interior de cada pessoa a flutuar livremente durante os 30 a 45 minutos de duração da apresentação.

Finalmente, em termos de tecnologia, a peça é elaborada, pois utilizo o TouchDesigner para criar paisagens 3D geradas em tempo real. Também uso o Ableton Live para improvisar música dentro de limites predefinidos. Frequentemente, em minhas performances, as duas expressões são influenciadas por algo exterior: as ondas cerebrais de uma pessoa, os movimentos de micróbios ou peixes, ou até mesmo os movimentos internos das árvores. No entanto, desta vez escolhi deixar o som e a imagem fluírem mais livremente. É bom fazer isso, pois abre espaço para uma maior liberdade artística.

Um tema central deste projeto é que a cultura humana é construída sobre narrativas. Como artista visual e músico, como você desafia o público a encontrar significado quando a linguagem falada tradicional é removida?

Eu, e muitos comigo, estamos cada vez mais convencidos de que existem limites importantes para o que podemos compreender racionalmente e dentro do paradigma científico e tecnológico ocidental. De muitas maneiras, isso vai de encontro ao que Eduardo Viveiros de Castro discute quando diz que o multiperspectivismo vai muito além do relativo, além de uma realidade quântica e do que a ontologia ocidental pode propor. Estive engajado na investigação dessas questões durante toda a minha carreira e frequentemente retorno aos textos de Viveiros de Castro. Esta também é a razão que me levou a focar quase exclusivamente na performance e por que gosto de trabalhar com música e som.

No entanto, quando contamos histórias, podemos transgredir o racional. Em seus contos, Borges consegue fazer isso com maestria. Assim, ao ler os poemas, também reflito sobre o que significa ler textos em voz alta e o que significa lê-los silenciosamente na página de um livro. O verdadeiro significado está sempre entre as linhas na linguagem poética, e esse espaço intermediário abre caminho para novas perspectivas, novas ideias e novas soluções. Isso ocorre porque, quando somos confrontados com um enigma, um paradoxo ou algo que aparentemente não faz sentido, podemos nos afastar ou refletir sobre isso. É exatamente o que Borges faz.

É minha esperança que o som e as imagens façam as pessoas refletirem, e não necessariamente de uma forma racional. Então, poderíamos perguntar: “Bem, como podemos refletir fora do racional?”. Para mim, essa é a pergunta que toda arte faz de uma forma ou de outra.

A colaboração é um pilar da sua prática artística. Como o diálogo com Carima Neusser durante sua residência na Cidade do México moldou a paisagem musical e visual desta performance específica?

Quando Carima e eu chegamos ao México, tínhamos um ponto de partida para ambas as performances que era bastante semelhante, mas, com o passar do tempo, as duas apresentações se desenvolveram de forma bem diferente. Acompanhamos o desenvolvimento um do outro e conversamos sobre o que fazemos diariamente. Enquanto Carima desenvolveu um novo formato para sua performance, eu me aprofundei no que venho trabalhando há algum tempo. Também pude usar mundos 3D de uma performance que criei em 2024, que havia falhado tecnicamente e que tive que descartar. Consegui salvar parte desse trabalho no processo de desenvolvimento da performance com “Limites”, e ele foi usado para o primeiro poema, “El mar”.

Estar no México também influencia os processos de trabalho de ambos. É um grande alívio para nós estarmos fora da Europa, em uma sociedade que é mais humana do que a que está tomando forma em muitos países pós-industriais e na Europa. É como se tivéssemos nos tornado escravos do sistema. Como se os humanos estivessem lá para servir ao sistema, e não o contrário. Este não é o momento nem o lugar para entrar no mérito do porquê disso, mas basta dizer que essa realidade um tanto mais humana inspira a criatividade de uma maneira muito interessante.

Os diálogos entre Carima e eu frequentemente focam no político. É um momento muito difícil para ser político de forma inteligente na sociedade atual, onde dogmas surgem incessantemente. É também por isso que é tão difícil fazer arte na Europa hoje. Há tanto que não pode ser expresso. Quando comecei na arte, pensava e sentia que esse era o propósito da arte. Ser capaz de dizer audaciosamente: “E se…?”. A afirmação não precisa ser inteligente ou racional. É uma pergunta que nos permite aprender sobre nós mesmos e o mundo que habitamos. No entanto, os “e se” precisam ser cuidadosamente considerados hoje. É por isso que a arte ocidental tem muito a aprender com a arte que foi criada sob opressão ou mesmo ditadura. Nelas, os artistas criam formas de perguntar “e se…” de maneiras que o poder opressor não consegue tocar, embora todos saibam o que o artista está investigando e que aquilo não é oficialmente permitido.

Quais são suas reflexões sobre o sistema pedagógico da SP Escola de Teatro e o trabalho da Escola durante sua visita a São Paulo?

Sempre fico impressionado e inspirado pelo trabalho que é realizado na SP Escola de Teatro. A principal razão para isso reside no fato de que os alunos recebem tempo e espaço para desenvolver sua individualidade; para cultivar seu “jardim interior”, por assim dizer. Cada pessoa nasce com uma mina de ouro (ou várias?) dentro de si. No entanto, em praticamente todas as instituições educacionais ao redor do mundo, o foco está em triturar a mina e substituí-la por doutrinação, propaganda e pela criação de cidadãos moldáveis para o sistema. A SPET é uma das poucas instituições que têm a coragem de ir contra a corrente e oferecer alternativas. Portanto, é sempre um prazer retornar.

Outra coisa que gosto na SP Escola de Teatro é que ela sempre muda e, ainda assim, permanece fiel à sua essência. Vejo que as coisas se movem, se desenvolvem, aparecem e desaparecem. É um lugar vivo, movido pelas pessoas que compõem a instituição, e não por ideologias ou dogmas. Também gosto da maneira como tudo é possível. Sempre há uma solução para qualquer problema que se apresente.

Então, obrigado por nos receber e espero que possamos retornar em breve.

+ Conheça as propostas pedagógicas da SP Escola de Teatro

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